Pelo passeio da avenida por onde o jipe seguiu vem agora uma jovem vestida de branco, com uma generosa mini-saia muito justa. É bonita e dá nas vistas, embora seja ligeiramente forte para a média das raparigas da sua idade. As jovens angolanas são em geral elegantes e gostam de se vestir bem.
Percebe-se que são vaidosas. É usual ver sair de um musseque (um bairro de lata) uma rapariga de saltos altos impecavelmente arranjada.
A quela de quem estou a falar passa agora mesmo em frente da fachada do hotel onde fica o meu posto de observação. Dois homens – um europeu, mais velho, e um angolano – observam-na, encostados a um carro. São ambos trabalhadores, possivelmente da construção civil, pela maneira como vestem. O europeu não tira os olhos da jovem, ficando a olhar insistentemente para ela até a ver desaparecer, dizendo qualquer coisa ao africano, que parece distraído.
A cena faz-me lembrar episódios correntes na Lisboa de há 20 anos e a que ainda é possível assistir hoje. Quando uma mulher vistosa passava em frente de uma obra, era difícil não ouvir assobios apreciativos ou piropos mais ou menos brejeiros. Havia quem dissesse que algumas mulheres mais provocadoras passavam deliberadamente em frente de edifícios em construção para ouvir essas manifestações de apreço pelos seus dotes físicos.
O que não deixa de ser curioso na cena que observo é o europeu, apesar de ser mais velho, parecer mais obcecado com a rapariga do que o africano. Talvez seja um problema geracional.
José António Saraiva em Viver para Contar, Tabu de 17 de Julho
“A VIAGEM continua. No miradouro que supostamente abarca a melhor vista sobre a Lagoa das Sete Cidades há uma pequena feira virada para os turistas. No meio da praça está um homem de chapéu de palha com um burro pela rédea. Segundo o motorista conta, o burro é o modo de vida do homem, visto que constitui uma atracção turística:
– Está sempre de vela acesa, o raio do burro – diz o motorista e aponta para o sexo do bicho, que quase toca o chão.
É suposto os turistas que tirarem fotografias ao animal pagarem ao proprietário – e assim burro e homem lá vão vivendo. Para quem lamente a sorte do bicho, é oportuno recordar a vida dos actores de filmes pornográficos, obrigados a executar performances bem mais complicadas com câmaras a filmar mesmo em cima…”
“Hoje, só muito raramente aceito um convite para participar em programas. Fui duas vezes à Grande Entrevista de Judite de Sousa (a última das quais nas vésperas do nascimento do SOL, porque achei que isso seria importante para o jornal), fui entrevistado uma ou duas vezes por Bárbara Guimarães para a SIC, participei esporadicamente num ou noutro debate.
Por isso, a observação de Pedro Santana Lopes, feita há meia dúzia de semanas, criticando o facto de eu, o José António Lima ou o Mário Ramires não sermos convidados para a TV, não tem completa razão de ser. Agradeço a referência. Mas a verdade é que fui eu que me afastei – e o mesmo se passou com os meus colegas.
É CERTO que, recentemente, aceitei um convite da RTP N para participar com alguma regularidade num programe de debate. Mas fi-lo apenas – acreditem – por amor ao SOL. Porque a ideia é a participação dos directores de jornais – e não fazia sentido o SOL não estar presente, como se não existisse.”
José António Saraiva em Viver para Contar, revista Tabu, 12 de Junho
“Sexta é um dia em que somos o único semanário, não temos um concorrente directo”, mas confessa que sair ao sábado era importante para “competir ombro a ombro com o Expresso”, isto porque, apesar da diferença de vendas entre os títulos, “mantemos essa chama acesa. Era um ponto de honra”. “A decisão tem prós e contras. Acredito mais nos prós”, frisa.O jornal, adianta ainda o responsável, está a estudar “alterações no formato”. Este será “eventualmente mais pequeno, por razões técnicas apenas”, e agrafado porque, acredita José António Saraiva, “o agrafamento vai ser o futuro de todos os jornais”. A decisão, que o director diz ter sido equacionada no Verão do ano passado, deverá ser tomada até ao início da época estival, o que poderá implicar “eventualmente, consoante as condições oferecidas” a mudança do Sol da Gráfica Funchalense para uma nova casa de impressão.”
Retirado da Meios e Publicidade de 13 de Maio